segunda-feira, 4 de maio de 2009

Fraterno, não Inútil

Bem, chegou a hora de eu revelar aos leitores desavisados quem eu sou de fato. Não faço isso por vontade, mas mais por necessidade, para que o que eu vou dizer agora faça sentido. Sou Guilherme Fians, justamente esse jovem que aparece na foto ao lado, foto essa inclusive publicada em um site de notícias na internet. E é sobre esse site que vou falar agora.
Um polonês chamado L. L. Zamenhof idealizou, em 1887, o idioma Esperanto, uma língua artificial, que tinha por objetivo imediato ser usada como segunda língua na tentativa de apaziguar conflitos na Polônia e fazer com que as diferentes culturas do país pudessem se relacionar por meio de um único idioma. Esses objetivos não foram alcançados, mas o Esperanto se destacou internacionalmente, e hoje é a língua neutra mais falada do mundo.
Pois bem. Findas as explicações, vamos aos fatos. Eu estou estudando esperanto, e a minha turma recebeu a ilustre visita de uma repórter do site de notícias Palma Louca. Até aí, tudo bem. O que me perturbou foram os resultados distorcidos e completamente parciais dessa entrevista.

Para começar, o título da reportagem é "Fraterno ou Inútil", e pretende mostrar um grupo de cariocas que estudam o "idioma universal falado em lugar nenhum". O Esperanto pode até ser uma língua não-nacional, mas não por falta de falantes (algumas estimativas apontam 3 milhões de esperantistas), e sim porque ele pretende ser apenas uma língua secundária, de forma que não atue como língua nacional e que não se imponha sobre culturas locais.
O sociólogo Émile Durkheim diz que as crenças não tem por objetivo fazer pensar, mas sim promover a ação. Movidos pela crença de que estamos fazendo nossa parte para um mundo mais compreensivo, nós, esperantistas, agimos; viemos aprender o Esperanto motivados por essa crença. É inadequado por parte da repórter intervir em crenças, da mesma maneira que é inconveniente questionar a veracidade de alguma religião. Crenças são fatores subjetivos, não podem ser simplesmente renegados e desvalorizados por alguém que não concorde com eles.
Além disso, fatos no mínimo "curiosos" me chamaram a atenção na reportagem. No final da aula, ela me perguntou: "Como você conheceu o Esperanto?". E eu disse "Vi uma propaganda no centro espírita que a minha avó frequenta, conheci uma senhora que falava a língua, e acabei me interessando por estudar". E o que ela escreveu de mim me fez parecer um fanático religioso!Eu não sabia que Emmanuel, por meio de Chico Xavier, tinha apoiado o Esperanto! E não falei nada daquilo!
E o que me pareceu mais incoveniente: temos em nossa sala de aula uma senhora de 82 anos, a dona Ilca. Ela, que deveria ser tomada como exemplo de dedicação e perseverança, foi completamente destratada pela repórter: "Todos os alunos acertam a resposta, menos Dona Ilca, uma senhora de 82 anos que, apesar de estudar a língua há quatro [anos], parece não entender muita coisa."

Apesar de a impressão dela sobre o idioma não ter sido muito favorável, insisto no interesse que tenho no Esperanto. Ele pode não ser uma língua nacional, mas existe uma grande rede de associações esperantistas em cada país que promove encontros, intercâmbios e hospedagens a preços populares em casas de esperantistas. Além disso, o que poucos sabem é que o Esperanto já é usado em relações diplomáticas, como em algumas reuniões entre israelenses e palestinos: em algumas ocasiões, quando há grandes atritos entre os grupos, em detrimento do árabe, do hebraico e do inglês, os diplomatas usam o Esperanto.

Esperantistas, uni-vos! Não se deixem abalar por críticas! Mantenhamos a crença de que podemos fazer a nossa parte para um mundo mais compreensivo! Pode até ser que as pessoas não consigam se harmonizar, mas podem ao menos se comunicar em um mesmo idioma.

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